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O Jogo Por Elas: pioneira na arbitragem, Marilena Lima relembra trajetória no futebol

Por Giovanna Borges — Fortaleza, CE 20/10/2026 15h02 Atualizado 20/10/2026 O Jogo por Elas: Marilena Lima é pioneira na arbitragem e no jornalismo esportivo Quem reconhece Marilena Lima pelas décadas dedicadas ao jornalismo talvez desconheça uma parte de sua trajetória.

O Jogo Por Elas: pioneira na arbitragem, Marilena Lima relembra trajetória no futebol
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Por Giovanna Borges — Fortaleza, CE

20/10/2026 15h02 Atualizado 20/10/2026

O Jogo por Elas: Marilena Lima é pioneira na arbitragem e no jornalismo esportivo

Quem reconhece Marilena Lima pelas décadas dedicadas ao jornalismo talvez desconheça uma parte de sua trajetória. Antes de ganhar notoriedade principalmente na cobertura policial, ela esteve à beira do campo como repórter esportiva e também abriu caminhos na arbitragem de futebol.

O Jogo Por Elas: Marilena é a 1ª mulher da crônica esportiva do Ceará

Após um longo período, Marilena retorna ao estádio Presidente Vargas, onde esteve como repórter esportiva e também treinou para ser árbitra.

- A primeira vez que eu entrei com a missão dentro dessa coisa diferente (esporte) foi aqui no Presidente Vargas, porque foi quando eu estava fazendo a crônica esportiva através da Rádio Dragão do Mar - contou Marilena.

Marilena Lima na série O Jogo Por Elas — Foto: Imagem gerada por inteligência artificial

Marilena Lima sempre gostou de futebol. Inclusive, chegou a jogar futsal no Antônio Bezerra, bairro de Fortaleza onde morava. Mas entrar no cenário esportivo como repórter foi uma oportunidade que surgiu a partir de seu trabalho na Rádio Jovem de Maranguape, todos os domingos.

A oportunidade surgiu durante um campeonato intermunicipal realizado em Maranguape. Sem outro profissional disponível para fazer a cobertura no campo, a rádio enviou Marilena.

- Eles disseram: "Marilena, não tem outra pessoa para ir lá no campo fazer essa cobertura e passar pra gente no gravador, aí vai ser você." Eu digo: "Bom, vamos ver no que dá." E fui lá e deu certo - explicou Marilena.

Marilena Lima — Foto: Giovanna Borges/SVM

O passo seguinte foi dado quando Itamar Monteiro escutou Marilena durante a transmissão e a convidou para integrar a equipe da Rádio Dragão do Mar. O percurso de Marilena estava sendo escrito.

Se a entrada na crônica esportiva aconteceu por uma oportunidade, a chegada à arbitragem teve um incentivador: Alzir Brilhante. Ex-árbitro de futebol, ele defendia a participação feminina na modalidade e incentivou Marilena a fazer o curso de arbitragem. Alzir representa justamente as pessoas que incentivam a participação feminina no cenário do futebol. Marilena dedica a ele a presença na arbitragem.

- Ele tinha sido árbitro de futebol e era um incentivador de que houvesse a participação feminina e foi quando ele disse: "Olha, vai ter um curso de arbitragem e você está intimada" - contou.

Marilena Lima em 1988 — Foto: Reprodução/Verminosos Por Futebol

A entrada na arbitragem também colocou Marilena diante da resistência à presença feminina em um ambiente predominantemente masculino. Os questionamentos não ficaram apenas nas palavras.

- Aqui nesse Presidente Vargas tinha um colega juiz de futebol. Colega, sim, porque eu estava ali treinando. Ele era juiz profissional, eu não estava inserida no quadro da Federação, mas, durante uma atividade física, ele propositadamente pisou em cima da minha perna - contou.

A hostilidade também apareceu quando Marilena estava com o apito nas mãos.

- Fui apitar um jogo de futebol na Granja Portugal, o cara cometeu a falta, eu dei um cartão amarelo para ele e ele pegou, saiu, virou e fez xixi dentro do campo. E aconteceram várias coisas - completou.

Em meio às resistências, uma frase sintetizou o preconceito que encontrou ao tentar ocupar aquele espaço.

Tarja O Jogo Por Elas com Marilena Lima — Foto: ge.globo/ce

Apesar do cenário negativo presente na rotina de Marilena dentro do esporte, ainda havia situações em que o bom trato e o respeito estavam presentes. Marilena guarda com carinho a memória positiva preservada dos momentos pós-jogo.

Marilena Lima em 1988 — Foto: Reprodução/Verminosos Por Futebol

- Eu tive uma coisa muito boa, uma coisa muito bonita, que eu nunca esqueci, que foi o comportamento dos meus colegas repórteres. A gente ia entrar, eles já chegavam lá perto do vestiário: "Atenção, galera, está chegando repórter mulher também." Nunca aconteceu nada, nunca vi jogador pelado, de jeito nenhum. E a gente trabalhou com muita tranquilidade. Eu nunca tive problema, por exemplo, dos atletas de negócio de conversar com mulher, nunca tive nada disso - conta Marilena.

Apesar dos bons momentos vividos, Marilena não conseguiu concluir o curso de árbitros da Federação, pois não tinha nenhuma graduação. Por esse motivo, atuava apenas em partidas de futebol amador, na várzea.

Pouco tempo depois, o Ceará passou a conhecer Marilena pelo jornalismo policial, enquanto aquela jovem da crônica esportiva e da arbitragem ficou praticamente escondida na trajetória dela. Isso porque o casamento abusivo com um militar marcou sua história negativamente e a tirou de perto dos gramados.

- Eu passei pouco tempo, porque, logo que eu entrei nessa área, um pouco tempo depois, acho que meses assim, eu me casei com uma pessoa de cabeça muito limitada. Ele era militar e aí não teve saída, eu tive que deixar, mas não é esse meu marido que vocês viram, não. Esse aí é outra pessoa, outro casamento - responde, preocupada.

Marilena Lima enfrentou dias difíceis. Não virou estatística de agressão contra a mulher, pois fugiu de casa com suas duas filhas após um dia cheio no trabalho e inúmeras ligações de seu então marido durante o ofício. Aproveitou a saída dele ao mercado para mudar de vida, segundo contou em entrevista ao jornal O Povo.

Tarja O Jogo Por Elas, Marilena Lima — Foto: ge.globo/ce

Passado esse momento sofrido, Marilena retornou ao jornalismo. Ingressou no Sistema Verdes Mares, mas, tempos depois, deixou a empresa. Novamente, a falta do diploma foi a grande questão. Entrou no O Povo, teve passagens pela Jangadeiro, onde se consolidou no jornalismo policial e obteve todo o seu reconhecimento popular.

- No jornalismo policial, o meu grande desafio foi ter assumido um compromisso comigo mesma de fazer um jornalismo com responsabilidade. Eu nunca tive o menor desejo de fazer alguma coisa ou falar alguma coisa com o intuito de aparecer. Eu nunca aceitei, por exemplo, fazer uma reportagem porque essa pessoa é importante, porque esse delegado é importante. O meu compromisso era com o jornalismo, era com a informação, era com a minha responsabilidade como comunicadora - conta Marilena.

Marilena Lima — Foto: Giovanna Borges/SVM

- Uma das coisas que mais me recompensaram no meu trabalho foi esse reconhecimento da população. Já tem quase 15 anos que eu deixei a atividade na televisão, nos programas policiais, e ainda hoje eu chego em qualquer lugar. É aqui em Fortaleza, é no interior onde eu moro, é por onde eu passo... Eu tive e tenho até hoje um carinho imenso da população que acompanhava esses programas policiais - completou.

Décadas se passaram até que Marilena voltasse ao Estádio Presidente Vargas. Ela não ia ao estádio desde o período em que trabalhou na crônica esportiva e treinou para ser árbitra. Porém, o futebol nunca deixou de fazer parte da sua vida.

O cenário que Marilena encontrou ao retornar também já não é exatamente aquele que deixou para trás. Se, em sua época, ouviu que a arbitragem era “atividade para macho”, hoje acompanha mulheres ocupando diferentes espaços dentro e fora das quatro linhas.

- A primeira coisa que eu tenho que dizer: eu acho muito bonito o que vem acontecendo agora. Uns anos atrás, a gente percebeu isso quando a Rede Globo começou a botar as meninas para se envolverem, para estarem ali, inclusive começando a narrar futebol. Eu vibrei muito com aquilo, porque já deveria ter acontecido há muito tempo e não acontecia - disse.

Para Marilena, o avanço não está apenas na comunicação. A presença feminina que ela desejava décadas atrás também ganhou espaço dentro do próprio futebol.

- Eu acho muito bonito o que está acontecendo, porque o Brasil é o país do futebol e não tem por que separar a mulher da crônica esportiva e nem tampouco as mulheres do futebol. Há muito tempo que o Brasil já deveria ter avançado - ressalta, sobre a presença das mulheres no esporte.

O avanço que Marilena gostaria de ter visto ainda quando tentava encontrar seu espaço no futebol terá um novo capítulo em 2027. Pela primeira vez, o Brasil receberá a Copa do Mundo Feminina.

Para quem entrou no futebol em uma época em que ainda precisava ouvir que o espaço pertencia aos homens, ver o país se preparar para receber as principais jogadoras do mundo tem um significado particular.

- Como eu te digo, demorou, mas isso é muito bonito da gente ver. Eu fico muito orgulhosa, assim, porque eu acho que era uma questão mesmo de tratamento desigual. Eu fico muito feliz e eu nunca fiquei tão empolgada de ver essa questão da gente ter uma Copa aqui, a gente vendo, a gente está testemunhando - afirmou.

Marilena não seguiu na arbitragem e também deixou cedo a crônica esportiva. Décadas depois, ao olhar para as mulheres que hoje ocupam esses espaços, resta a sensação de que aquela história poderia ter começado muito antes.

- Eu queria muito que outras pessoas tivessem tido oportunidade. Eu não lutei para continuar, para me aprofundar, não lutei devido a essa circunstância, mas eu queria muito que outras meninas tivessem entrado naquele tempo e a gente tivesse antecipado um pouco o papel da mulher, tanto na questão da crônica esportiva como também na arbitragem de futebol - finaliza Marilena.

Marilena Lima — Foto: Giovanna Borges/SVM

O Jogo Por Elas — Foto: ge.globo/ce