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toe conecta técnica, emoção e intensidade durante apresentação em São Paulo

Quais seriam as chances de uma banda japonesa de math rock (estilo pouco conhecido até mesmo entre o público underground), que faz músicas instrumentais repletas de compassos irregulares e estruturas que desafiam qualquer fórmula convencional, conseguir lotar uma d…

toe conecta técnica, emoção e intensidade durante apresentação em São Paulo
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Quais seriam as chances de uma banda japonesa de math rock (estilo pouco conhecido até mesmo entre o público underground), que faz músicas instrumentais repletas de compassos irregulares e estruturas que desafiam qualquer fórmula convencional, conseguir lotar uma das principais casas de shows de São Paulo? E o detalhe mais curioso: tudo isso sem qualquer exposição significativa na grande mídia.

Tal feito já seria um desafio considerável até mesmo para artistas locais populares, amparados por canções com refrões grudentos, melodias de fácil assimilação e ampla exposição no mainstream. Quando se trata, porém, de um grupo cuja proposta artística dispensa vocais e se apoia na complexidade rítmica e no diálogo entre os instrumentos, alcançar tamanha mobilização de público pode parecer uma empreitada praticamente impossível.

No entanto, foi justamente isso o toe, um dos nomes mais importantes e respeitados do estilo, conseguiu realizar. Nos dias 17 e 18 de setembro, o quinteto subiu ao palco do Cine Joia, em São Paulo, para duas apresentações que marcaram seu retorno à capital paulista, após oito anos, desde os shows realizados em 2018, na Fabrique. A nova passagem pelo continente, que também incluiu Lima, Santiago e Buenos Aires, além de datas previstas no México, celebra os 25 anos de trajetória do grupo e promove seu mais recente álbum, NOW I SEE THE LIGHT, lançado em 2024. A apresentação foi organizada pela importante gravadora independente Balaclava — mesmo selo responsável pela excursão anterior dos japoneses. Representantes do Heavy Metal Online tiveram a oportunidade de conseguir a primeira data.

A expectativa para a apresentação era alta. Quase duas horas antes da abertura dos portões, o público já formava filas gigantescas ao longo da Praça Carlos Gomes. À medida que o horário do evento se aproximava, o local foi sendo completamente tomado pelos fãs. Durante esse período, chamou a atenção a presença de uma equipe de filmagem que colhia depoimentos dos admiradores e perguntava sobre a relação de cada um com a banda, dando a entender que as imagens poderão ser utilizadas em um possível documentário ou reportagem sobre a turnê latino-americana do grupo.

Sem banda de abertura, o público foi recebido por mais de uma hora de discotecagem. Após cerca de 30 minutos de atraso — aparentemente para aguardar a entrada de parte dos espectadores, diante da grande lotação do clube, e não por falta de pontualidade dos músicos — , Kashikura Takashi (bateria), Mino Takaaki e Yamazaki Hirokazu (guitarras), Yamane Satoshi (baixo) e Keisaku Nakamura (teclados) surgiram no palco, enquanto “CLOSE TO YOU” ecoava pelos alto-falantes. Com os integrantes posicionados, o show começou com “LONELINESS WILL SHINE”, faixa do novo disco, marcada pela combinação de voz, violão e guitarra.

Acompanhando o frontman Hirokazu, os fãs arriscaram cantar em japonês e não economizaram nos gritos e nas vibrações durante os momentos em que a composição assumia contornos mais explosivos. Na sequência, o toe mergulhou em seu repertório instrumental, começando por “Long Tomorrow ”, do álbum For Long Tomorrow (2009), que alterna viradas complexas, riffs explosivos e dedilhados, e “Kaze to Kioku”, presente no trabalho mais recente, cuja atmosfera reflexiva também evidenciou a conexão praticamente milimétrica entre os músicos.

“Kodoku no Hatsumei”, do álbum the book about my idle plot on a vague anxiety (2005), foi a primeira a levar o público verdadeiramente à loucura. Em um momento de empolgação coletiva, os fãs improvisaram um coro generalizado, reproduzindo com a própria voz o cativante riff da canção. O destaque ficou também para Kashikura, que estendeu a composição com um breve solo de bateria. Em “Chiaroscuro”, outra faixa do novo disco, o baterista voltou a roubar a cena ao executar um trecho de complexidade absurda, marcado por viradas furiosas e uma intensidade que parecia colocar o próprio instrumento à prova. Ao término da música, a resposta veio na forma de um coro uníssono com o nome da banda, entoado pelos presentes.

“The Latest Number ”, uma raridade do EP homônimo, lançado em 2018, trouxe Hirokazu novamente aos vocais. Logo depois, o grupo emendou a inteiramente instrumental “Because I Hear You ”, curiosamente a última faixa de HEAR YOU a integrar o repertório naquela noite. A sequência instrumental prosseguiu com “Esoteric”, marcada por uma inesperada pausa de dez segundos e uma performance de palco de Hirokazu que beirou o descontrole: o músico chegou a se arrastar pelo chão com sua guitarra, arrancando berros entusiasmados dos fãs. Em contraste com a intensidade do bloco anterior, o encerramento do set regular veio com três faixas acústicas. A primeira foi “Sonny Boy Rhapsody ”, composição do novo disco que contou com uma das participações mais expressivas do público ao longo do show, com os fãs cantando em coro e acompanhando a música com palmas. Na sequência, vieram “NOW I SEE THE LIGHT ”, faixa que dá nome ao álbum mais recente, e “F_A_R ”, encerrando o bloco regular com mais uma representante do raro EP Our Latest Number.

Após um breve intervalo, os integrantes retornaram ao palco para o bis. Em um dos poucos momentos de interação com o público ao longo da noite, Hirokazu agradeceu o apoio dos fãs em uma fala que mesclou palavras em português, inglês e japonês. Na sequência, a banda executou “Two Moons” e “After Image”. Antes de iniciar a última música, porém, o frontman explicou que gostaria de chamar uma amiga ao palco para traduzir uma mensagem que havia preparado.

Então, Mariana Galvão, representante da Balaclava Records, surgiu para ler o texto diante da plateia. A mensagem abordava a importância de manter o foco nos próprios objetivos mesmo diante de dificuldades e desafios, além de expressar a posição do toe contrária aos conflitos armados ao redor do mundo, com menções às situações vividas na Ucrânia e na Palestina, e à discriminação de grupos minoritários. O texto também ressaltava o desejo da banda de continuar em atividade pelo maior tempo possível e manifestava a intenção de retornar ao Brasil e aos demais países da América Latina em um futuro próximo. Ao término da fala, o repertório foi encerrado com a emocionante “Goodbye”.

Entre mudanças bruscas de intensidade, passagens delicadas, performances arrebatadoras de Kashikura na bateria, momentos de interação conduzidos por Hirokazu e o virtuosismo de Mino Takaaki, Yamane Satoshi e Keisaku Nakamura, cada faixa apresentada ao longo do set foi capaz de gerar sentimentos mistos na plateia. Em seu retorno a cidade de São Paulo, toe mostrou como a música é uma das forças mais poderosas do mundo, sequer necessitando de palavras para emocionar.

12. Two Moons13. After Image14. Goodbye